Sobre desrespeito e heavy metal

Depois da noite de ontem, já imagino o que os organizadores do show do Iron Maiden em Interlagos pensam dos fãs de heavy metal: um bando de animais. O show tinha de tudo para dar certo. Espaço, promessas de uma apresentação inesquecível, muitos – muitos mesmo, foram mais de 60 mil – fãs da banda e música de qualidade. Infelizmente, disso tudo, apenas o espaço pecou (tirando aqueles fãs otários que sempre existem).

O desrespeito com os pagantes, sim, nós mesmos, foi tremendo. Má organização na entrada, mais ainda dentro do autódromo e na saída do evento; quer dizer, um completo fiasco e dor de cabeça para quem foi com a intenção de se divertir. Do lado de fora, filas quilométricas e má organização, coisa de quase dar a volta em Interlagos. Não negarei que cortei fila, estava fora de cogitação fazer parte daquilo que levaria mais de uma hora só para entrar; além de uma boa caminhada lá dentro.

Era uma maratona – irônico ser em Interlagos. Depois de passar pelos portões, havia uma bela estrada de tijolos amarelos a ser percorrida: um largo corredor, comprido mesmo e estreito (lembre que são mais de 60 mil pessoas), dava acesso a separação entre pista premium e normal, mesmo caminho, logo, maior confusão depois. Aí você pensa: “Ah, tudo bem. Em todo show tem um pouco de fila”. Nada disso, mais ainda quando se trata de 60 mil semi-zumbis cansados e cobertos de lama; sim, lama.

Dizem que banhos de lama fazem bem à pele, não percebi isso. Fiquei embarreado até o joelho, sem contar que eu estava me sentindo no manguezal. Choveu cedo naquele dia, mas quem liga? Qual o motivo de não colocar sobre a grama, chovendo ou não, tapumes para a alegria dos pagantes? Afinal, merecemos conforto; aé, falei do respeito também? Patinar, escorregar e atolar na lama era hobby ali dentro.

Ocorreu um atraso, claro, show que é show tem que ter atraso. Não culpo a banda, muito menos a organização por isso. Mentira, a organização novamente fazendo aquilo que sentíamos em baixo de nossos pés – a sensação da lama era equivalente à da mais pura e pegajosa merda. Começa o show. Algo espetacular, uma apresentação memorável. Sem palavras, não há do que reclamar de uma das maiores bandas do mundo. Eles fizeram o que prometeram e todos saíram satisfeitos.

A questão em si não é a apresentação. Após o show teve mais maratona: a saída de mais de 60 mil fãs destruídos por locais de pouco acesso, estreitos mais do que o diabo. Resultado: tumulto, espera, fila, gente pulando grade, grade pulando gente, pessoas passando mal, o mal passando pela cabeça das pessoas e tudo de ruim que existe no mundo. Não dava para sair, o jeito – escolhidos por muitos – foi abrir caminho; destruição das grades e divisórias, construção de novas passagens. Agora me pergunto, e se tivesse dado algum problema maior, como saíriam todas aquelas pessoas? A saída de emergência não funcionaria, como não funcionou. A organização deu sorte de não ter acontecido nada de relevante, perigoso e desastroso.

Lugar sem estrutura não merece receber uma banda de tanto prestígio, muito menos seus fiéis fãs; pagamos – e caro – por um tratamento de um bando de animais. Tudo isso valeu por ser o Iron Maiden em uma apresentação marcante. Que isso sirva de lição para Interlagos e todos os organizadores, agora se virem com a destruição que deixamos devido sua filha da putisse.

(Texto originalmente publicado dia 16/03/2009 e republicado a pedidos de André Forastieri no blog BIS da MTV)

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